quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Donativos encaminhados ao abrigo Aldo Silveira são vendidos


Os abrigados na escola municipal questionam a fiscalização e o controle de distribuição de doações


Marmita a R$ 1,00, cesta básica a R$ 5,00. Este é o custo das doações encaminhadas aos desabrigados da região do Moreto em Capivari. Segundo os que estão abrigados na escola municipal Aldo Silveira, até a semana passada, as marmitas eram entregues do lado de fora da escola, sendo que o cadastramento podia ser feito no mesmo instante. O mesmo acontece com as cestas básicas que são comercializadas por alguns que não sofreram com as enchentes.

Segundo a abrigada Eliana Cristina Ferreira, a informação recebida é que devem liberar as cestas para não estragar.

O ex-abrigado Emilio Leite de Campos, que voltou para casa ontem (29), afirma que muita gente que não precisava da cesta básica ia até a escola e pegava. “Muitas vezes, pessoas que nem estavam “dentro d’água” pegaram e as que realmente precisavam, ficaram sem”.
A informação é confirmada por voluntários, que preferiram não se identificar por receio de não serem contemplados com casas populares. Segundo eles, o sistema era mais rigoroso no início do ano, porém nas últimas semanas está deixando a desejar. “Tem pessoa que tem cadastro e já pegou 5, 6 cestas”, comenta *João.

Outro voluntário ponderou que pessoas que não sofreram com as enchentes também são beneficiadas com as doações. “Tem gente que nem pegou água na casa e pega cesta. Virou um comércio, por agora todo mundo recebe no grito”.

Este mesmo voluntário afirmou que muitos dos que ganham cestas se recusam a receber algumas marcas de produtos. “Estes dias, vi uma pessoa trocando a cesta porque não gostava da marca de café”.

Os que precisam
Mãe de seis filhos, a moradora do Moreto, que também preferiu não se identificar por medo de represália, afirmou que só consegue pegar, “com muito custo, uma cesta há cada 15 dias. Mas teve gente que pegou uma cesta e vendeu para comprar a passagem para voltar para o Nordeste, já que acabou a safra”.

Essa moradora comenta que vê todos os dias vários donativos serem encaminhados à casas que não precisam, como também serem vendidos. “Tem de tudo. Tem filho de comerciante, que não precisa e pega, tem gente que leva a cesta para casa e volta para comer marmita, tem gente que deixa a família em casa e fica no abrigo para levar doações. Tem de tudo”.

Uma moradora da área central da cidade que teve a residência atingida pela enchente, mas não ficou desabrigada, comenta que há 20 dias pediu material de limpeza no ginásio de esportes, assinou um papel no local, sendo informada que o que havia pedido chegaria na mesma semana e até hoje não recebeu nada. “Eu não fui atrás de alimento, nem roupa, só precisava de material de limpeza para arrumar minha casa, e nem isso eu tive”.

Segundo a assessoria de imprensa, todas as famílias atingidas pela enchente devem procurar o abrigo que atende a regional do bairro atingido e contar à assistente social o que foi perdido com as enchentes, sendo que as profissionais são encontradas nestes locais das 8h às 17h, durante a semana.

Má fé
As queixas de má fé na problemática pós-enchentes capivariana não se limitam aos abrigos da cidade. Segundo uma voluntária da Central de Doações da prefeitura, existe muito desvio de donativos realizados pelos próprios voluntários que ajudam a recepcionar e separar as doações. Ela lembra que muitos voluntários atuam com determinação, visando apenas a caridade, entretanto, existem àqueles que querem se beneficiar da situação. “Muitos produtos são escondidos, os de melhor qualidade, como doces, bolachas, ketchup, panetone, salsicha, hambúrguer”.

Segundo ela, essa escolha também se dá com as roupas e calçados, tanto que algumas sacolas que continuam produtos novos sumiram dos locais de arrecadação. “Durante o trabalho voluntário, algumas sacolas foram montadas com destino às casas dos que trabalham para ajudar os desabrigados”.

Organização e atenção
Para os abrigados, toda a problemática é gerada pela falta de organização e fiscalização das doações, como também a atenção dos funcionários.

*João comenta que antes era freqüente as visitas de assistentes sociais e profissionais da vigilância sanitária, sendo que estes passavam as informações para os abrigados, o que não acontece mais. “Tinha mais informações, mais funcionários dedicados, agora parece que eles estão fazendo por obrigação”.

O que mais incomoda Campos é a organização da distribuição de donativos. Para ele, uma maior fiscalização resolveria o problema. “Não sei que tipo de cadastro eles [prefeitura] fizeram, porque qualquer um chegava lá com identidade e comprovante de endereço e recebia. Para fazer uma coisa você tem que conhecer. Tem que saber onde a pessoa mora. Se realmente foi atingida e precisa de ajuda. Era só chegar lá com a identidade e com comprovante de residência que pegava.”

A revolta do morador do Moreto se deve à comercialização das doações. “Muita gente que não estava na escola pegava marmitex e trocava por pinga em boteco.”De acordo com a assessoria de imprensa, cada família de quatro pessoas tem o direito de receber uma cesta básica há cada 15 dias. Com relação às vendas dos donativos, a secretária de Desenvolvimento Social, Sueli Batagin, não entende como responsabilidade da prefeitura a comercialização, uma vez que os profissionais do Poder Executivo que foram destinados a trabalhar no abrigo acreditam no que as pessoas afirmam.

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